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Agradecimentos para a pessoa que Deus escolheu ontem

  • Mieko Hamada
  • 30 de abr. de 2017
  • 4 min de leitura

Uma das melhores lembranças que tenho é de quando, desde criança, eu chegava em sua casa, numa hora de um dia qualquer, e ela me perguntava se eu gostava dela, ou se eu queria o bem a ela. Sempre que eu sorria e fazia um gesto positivo com a cabeça, ela me abraçava e me dava um beijo na testa, dizendo "Deus te abençoe, minha filha".

É quase difícil de me lembrar disso, uma vez que não a vi repetindo esse gesto nos últimos quase dez anos, desde que uma doença neurodegenerativa foi corroendo por dentro, afastando o que víamos nela das nossas memórias mais antigas. Mas ela ainda estava lá.

Ela ainda estava lá mesmo quando eu era criança demais pra entender que ela não lembrava mais do meu nome ou do meu rosto não porque ela não queria. Mesmo quando eu ficava irritada demais para responder adequadamente uma das perguntas que ela fazia cinco, seis, sete ou oito vezes. Mesmo quando eu pensava "ela vai continuar esquecendo de novo e de novo"... Ela estava lá, em momentos tão breves quanto um piscar de olhos, nos quais, em seus últimos dias, ela ainda dizia que me conhecia se a perguntassem. Ela ainda sorria e dizia "oi", e perguntava "tudo bem?" e respondia inusitadamente com comentários engraçados - e ria conosco deles.

Ela sempre continuou sendo minha avó. Ainda que eu já tenha feito ela ficar com raiva, ainda que eu tenha a derrubado no chão, num abraço desajeitado como só eu sei ser, num Natal de muitos anos atrás.

Por isso e por muitas outras coisas, suponho, eu acho que devia ter lembrado de pedir desculpas a ela quando ainda entendia isso perfeitamente. Eu deveria ter tirado mais dos meus finais de semana para vê-la, mesmo que eu tivesse muitas provas durante a semana seguinte. Eu deveria ter pensado mais sobre o que os laços entre as pessoas significam, antes de me preocupar com problemas que eu não tinha resolvido em minha cabeça.

E agora eu nem tenho mais tempo, e nesses dias eu só pude ir vê-la passar por momentos difíceis num hospital, enquanto a única coisa que eu conseguia sussurrar era "desculpe", "desculpe por vir te ver assim".

Eu sei que ela está num lugar maravilhoso agora, mas ainda me incomoda a esperança que tive, quando soube que ela tinha Alzheimer e quando a vi dependendo de todos em volta depois de passar um um câncer levemente agressivo, de vê-la andando com as próprias pernas de novo. De vê-la alegre, cantarolando enquanto fazia algo na cozinha ou enquanto assistia a mais uma missa em frente à TV. Quando eu era criança eu achava que a palavra "tratamento" significava "cura", mas hoje entendo o que os médicos querem dizer. Eu não desejaria a dor que ela deve ter sentido com tudo isso a ninguém.

E ainda hoje, durante o velório, enquanto eu me sentava ao lado daquele mar de pedras brancas e flores, eu pensava "ela vai para um lugar tão lindo hoje" ao mesmo tempo em que a frase "mas um dia eu irei pra lá também?" gerava certo pânico em minha cabeça. Há dias em que eu me arrependo de tantas coisas, que escuto tanto que eu estou errada, ou que eu fiz algo errado, que me questiono se mereço tudo o que Deus tem me dado nos últimos anos. Eu sei se um dia eu a ver bem de novo será no céu. É a única chance que tenho de abraçá-la mais uma vez. E espero mesmo que eu dia eu possa, pois ela ainda tem que me apresentar o meu avô.

Às vezes penso que tudo podia ter sido tão diferente se eu tivesse percebido isso antes. Mas não há mais espaço para arrependimentos aqui. Ela me ensinou a amar a Deus e agradecer tanto, tanto... É a única coisa que eu posso fazer por ela agora. E espero que ela saiba que continuarei tentando.

Muito obrigada, vó. Eu sei que você nunca vai estar tão longe para que minhas preces possam alcançá-la, só hoje soube porque danado a senhora detestava tanto a cor amarela e ainda estou me perguntando se deve estar rindo das flores de mesma cor que recebeu, não se importando demais com esse detalhe, ou ainda achando graça das ideias sem noção que eu troco com minha mana sobre o céu sem nunca ter estado lá, ou sobre São Pedro querer jogar a chave do portão em nossas cabeças pelas resenhas que aprontamos por aqui. No mais, eu não sei de nada. Nem tenho muita certeza de como você enxergou tudo isso, eu só fui escrevendo.

Não esquece de mandar um abraço pro vô por mim. Devo parar agora porque as lágrimas não deixam eu enxergar o teclado direito. Vê se se cuida como você disse que eu deveria. A gente se vê uma hora dessas. Ajude Cristian a tomar conta de mim enquanto eu corro o mundo atrás desses meus sonhos loucos. Eu sei que todos vocês aí em cima já vêm fazendo isso há uns 19 anos... Muito obrigada mesmo!!

Que Deus te faça mais feliz do que nos fez te colocando em nossas vidas!

Mile / "Netinha que gosta de visitar vovó"

 
 
 

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